quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

(Des)Conversar

E-mail, MSN, SMS são ferramentas de comunicação escrita que vieram sobremaneira encurtar distâncias e alterar a forma como nos relacionamos com o mundo, já que tornaram as redes pessoais de contacto quase infindáveis.

São ferramentas muito simpáticas, friendly user, desinibidoras e facilitadoras no processo comunicativo. Permitem-nos falar, em simultâneo, com o nosso amigo Cangurú da Austrália e o nosso amigo Panda da China. Levando-nos a vangloriar sabermos pormenores da vida de cada um deles, que grande parte das vezes nunca vimos, nem temos a pretensão de ver, da mesma forma que vangloriamos nem sequer saber o nome do nosso vizinho ou colega de trabalho, com o qual nos cruzamos todos os dias e ao qual pouco mais dizemos do que o socialmente imposto e inexpressivo "Bom dia" ou "Boa noite" (quando o fazemos).

De ferramentas de auxilio ao trabalho, massificaram-se e são cada vez mais utilizadas para entretenimento e descontracção, antes, durante e depois, de um dia rotineiro.

O e-mail substitui cartas, cartões, convites, telefonemas, conversas cara-a-cara.

O SMS passou a ser a ferramenta do "Estou atrasado", do "agora não posso ligar", do "estou ocupado", do "gosto de ti", quando estamos num ambiente em que não dá para manter uma conversa reservada, quando precisamos de um empurrãozinho para dizer algo mais pessoal, quando nós próprios não queremos conversar com a pessoa, ou quando queremos dizer o mesmo a um grupo de amigos.

O MSN passou a confessionário, a gabinete de psicanálise, a ponto de encontro estilo café, a local de culto onde se exorcizam todos os males, onde se resolvem crises existênciais, onde se iniciam amizades e onde se constroem relações.

Criou-se um código próprio com terminologia e simbologia que, supostamente, exprime de forma inequívoca a entoação e emoção que queremos passar (risonho, tristonho, aborrecido, tímido, divertido, envergonhado, extasiado, sarcástico, corrusivo, idiota, agressivo, contente, etc, etc, etc.). Pequenos ícones que pretendem substituir toda a comunicação não-verbal (que é inata, espontânea, quase incontrolável e tem uma importância superior a 80% na comunicação), mas que mesmo assim não são suficientes para evitar más interpretações.

E quando este momento chega... Abre-se caminho para zangas e discussões. São pequenos nadas que podem causar mossa se forem sobrevalorizados por uma das parte e sub-valorizados por outra. Chegados a este ponto, ou entram numa batalha feroz em que ambos estão numa conversa de surdos, numa esgrima de argumentos que nenhum quer entender e no final viram costas e vai cada um para o seu lado amuado, ou então alguém tem o sangue frio e discernimento para pôr termo à contenda.

O que me tira do sério neste meios é o uso e o abuso que as pessoas fazem para pedidos de desculpa, de mea culpa e esclarecimentos de palavras, comportamentos e atitudes menos próprios que acontecem no mundo 3D, no cara-a-cara.

Seguir por este caminho só demonstra uma enorme falta de consideração pelo outro, roçando mesmo a falta de respeito. Demonstra que o que se quer não é ficar de bem com o outro, não é resolver a contenda, mas sim, contorná-la para, pelo menos, ficar bem com aquilo que determinou ser a própria consciência.

BOLAS!!! Se as pessoas são adultas o suficiente para nos despejarem na cara todo o seu lixo psicótico, inseguranças e receios, num momento de fúria e desnorte, como se a culpa de tudo fosse nossa. Também devem ser adultas o suficiente para, da mesma forma chamarem o outro e explicar o que se passou, depois da cabeça ir ao lugar e o curto-circuito passar.

Então se a pessoa já teve mais do que uma oportunidade de se redimir cara-a-cara porque estivemos juntos depois da crise, mas não o fez, e após perceber a minha frieza de tratamento, resolve (des)conversar pelos canais alternativos... Fico intragável. A pessoa já perdeu qualquer credibilidade. O que me leva a minimizar a situação até à última casa.

Se é a primeira vez que tenta resolver a situação assim, leva com a cantilena do 'estás a falar mesmo do quê?', 'OK, tudo bem', 'não há problema', 'compreendo', 'foi um dia difícil', 'eu espero sempre demasiado dos outros e depois dá nisso. Mas isso passa-me', 'vou domir'.

Se é repetente neste acto de contrição, apanhando-me num dia não, vai ler tudo o que normalmente vem ao meu pensamento, mas a minha boca só costuma deixar sair quando acompanhada da devida ironia, sem qualquer pontuação para que dê a ênfase que quiser. Apanhando-me num dia sim, vai ter respostas ao que literalmente escreve, pois vou deixar de perceber segundas intenções e de ler as entrelinhas.

Para além de ainda ficar a perceber menos os meus sentimentos (saltar-lhe à cara e partir-lhe a boca toda, ou mandá-la ir ver se está a chover, ou será mesmo desamparar-me a loja porque os seus créditos comigo já acabaram?), começo a contar até 100 em japonês, a recolher o meu mau feitio, a lamber as feridas e procuro outra pessoa, entre os meus contactos, que sei que me vai escrever umas piadolas que me vão fazer dispersar da (des)conversa.

Quem não tem peitaça para me olhar nos olhos e dizer 'agi mal', não merece que eu lhe escancare os sentimentos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Portugês Técnico*

A linguagem técnica fascina-me..
Adoro profissões com uma marcada gíria técnica.
Idolatro os profissionais que a dominam, que já não a sentem como um fluído estranho a circular no sangue por já fazer parte dele.
Excita-me ouvir o uso e o abuso que os interlocutores fazem dos termos técnicos, ainda mais na conversa informal que um desabafo transmite.
Só de escrever a conversa que ouvi ontem entre 2 técnicos de venda da área Imobiliária, ainda me arrepiam os pelos do pescoço.


GAJO 1 - A rameira da RuMiNaNTe BoVíDea da espanhola do departamento financeiro. Eh pá! Não te digo nem te conto. Que RuMiNaNTe BoVíDea e rameira do pénis. Gosta mesmo de cOPULAr um gajo.

GAJO 2 - Então pénis?!?!?

GAJO 1 - Então?!? Então não é que a rameira, rUmInAntE cAprÍnEA, não quer pagar as despesas que excedi este mês! A RuMiNaNTe BoVíDea.

GAJO 2 - Que grande rameira me saiu esta rUmInAntE cAprÍnEA.
rameira!





Nota de rodapé: não há necessidade de tradução simultânea

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* Ou conversa de gajos.
Ainda dizem que nós mulheres é que somos dadas a excessos no uso das palavras.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Medo, Muito Medo?





O que sentir quando um colega, com o qual não trocamos mais do que o cordial 'bom dia, como está?' e impressões de trabalho, nos vem procurar todos os dias, à entrada e saída, para um beija-mão, nos oferece flores e bombons no dia de S. Valentim e ainda nos trata por você, num falso distanciamento, já que trantando-nos pelo nome acrescenta um inha?

Medo, muito medo é pouco?

Be My Valentine*

Para quem ainda não sabe o que oferecer à cara gémea e à alma metade, e também não se quer deixar levar pelas ideias consumistas que o mercado impõem (ou seja está sem cheta). Aqui fica uma ideia romântica para o dia dos namorados. Que não restem dúvidas que a noite será escaldante.




E como felicitar é bonito e está na moda: a todos FELIZ DIA DE S. VALENTIM!



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* Haja paciência para dias temáticos sem conteúdo.
E viva a sociedade de consumo.

Dúvidas



De facto, ainda não percebi porque insistimos em guardar mais intensamente
na memória as coisas menos boas que nos acontecem.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Dolce Fare Niente Volta!






AHHHHH!! Saudades das conversas de final de tarde, acompanhadas das morangoskas de 'arroz mascavado' e deste pôr-de-sol.

Esplanar precisa-se.

Ouvi Por Aí


"Desculpa lá, mas os homens quando são bonitos são cabrões.
São mesmo uns grandes cabrões.
É um facto."

****

"Satanás escraviza as pessoas.
É por isso que este mundo está como está.
Aparece na congregação pelas 18h para te libertares dos teus pecados."

****

"Acho que todos procuramos alguém
que tenha a arte de nos entrar no sangue
e nos levar até à lua."

****

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Magic


Quem nunca pensou nuns truques de magia para de quando em vez ultrapassar obstáculos diários.

Jamais


Afinal o novo aeroporto vai continuar a chamar-se Aeroporto da OTA
(Obra Transferida para Alcochete)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Descoberta

Desde que me conheço como gente que 23 de Janeiro é dia de grande festança. É o aniversário da avó, o aniversário do avô, o aniversário da tia e o aniversário do pai, que formam o Quarteto de 23.

Ano após ano, a família e os amigos animam a casa. À medida que os anos passaram, o Quarteto 23 virou trio, depois dueto e de momento é um solo, agora que por cá só está o senhor meu pai.

E não é que este ano acabámos de descobrir que este senhor nasceu a 21 de Janeiro. Dia 23 foi quando passou pela cabeça dos senhores meus avós que registar esta alminha até seria uma boa ideia.

O senhor meu pai sempre soube disso e nunca disse a ninguém.
OH! Paizinho isso não se faz!

Se fosse a senhora minha mãe pedia o divórcio :)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Que Irritação!!!


Haverá algo mais irritante do que no teu DIA DE FOLGA (após dez longos dias de trabalho), às 8 HORAS DA MANHÃ, o TELEMÓVEL TOCAR e SERES ACORDADA pela voz da chefe que pede encarecidamente PARA SUBSTITUIR UM COLEGA QUE FALTOU sem avisar?

CLARO QUE HÁ!

NO DIA SEGUINTE VOLTAR A ACONTECER O MESMO, mas ÀS 7 HORAS DA MANHÃ.

ESTA EMPRESA NÃO TEM MAIS COLABORADORES?
É o que dá ser demasiado prestável.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Is It a Bird? Is It a Plain? No, Is Superman!!

Saio do trabalho, estou na paragem a aguardar o autocarro. Vou aproveitando os entretantos para pôr a leitura em dia e descomprimir do stress do trabalho. À minha volta meia dúzia de pessoas aguardam impacientes mais um regresso a casa, mas a sua impaciência não me atinge. Em poucos minutos estou envolvida pelo ritmo que o leitor de mp3 liberta. Deixo de pensar no trabalho e desligo-me do que se passa à minha volta.

A chegada de um autocarro faz-me voltar à terra. Desvio os olhos do livro para ver se é o meu. Para variar não é, mas pelo menos à minha volta já só restam duas senhoras. As outras pessoas desapareceram.

A música e a leitura estão novamente a libertar-me do que me rodeia. A sensação de liberdade é quebrada pelo diálogo que as duas senhoras começam.

Uma, excitadíssima até à última casa, aponta para algo enquanto vai chamando a atenção da companheira que não parece dar a mínima importância ao que se passa.

Senhora excitadíssima (em grande animação): Olha, olha!!! É um cão.
Senhora apática (numa interrogação): Um cãooo?
Senhora excitadíssima: Ali. Olha, é um cão.
Senhora apática: Isso? Isso não é um cão. É...
Senhora excitadíssima (atropelando a outra): Pois não, tens razão. É um lobo.
Senhora apática (em maior interrogação): Um lobooo?!?!?
Senhora excitadíssima (baralhada): Não é um lobo? Então o que é?
Senhora apática (incrédula): Não. É um leão.
Senhora excitadíssima (decepcionada): Ah!! Pois é é um leão.

Quando volta a reinar o silêncio entre as duas, fecho o livro, tiro o telemóvel da mala, vejo as horas, olho para o tal que começou por ser cão, depois passou a lobo e finalmente a leão e não consigo deixar de rir.

Por uns instantes vi-me numa adaptação foleira das Aventuras do Super Homem, graças ao painel publicitário do abrigo da paragem do autocarro.





Is it a Dog? Is it a Wolf?
No, Is Lion of Porches!!



domingo, 6 de janeiro de 2008

Rewind: 2007

Do Natal lembro-me:
24/Dezembro:


10h - Acordar atrasadíssima.
11h - Sair a correr de casa sem tempo para nada mais do que banho.
12h30 - Chegar ao trabalho a horas mas sem comer.
13h - trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar
18h30 - Pausa, fumar, pausa, fumar
18h50 - trabalhar, trabalhar, trabalhar, já não dizer coisa com coisa, trabalhar
20h - Tchau, tchau coleguinhas. Bom natal e para quem fica bom trabalho. Até amanhã!
21h - Casa da tia, família reunida, beijinhos para uns, abracinhos para outros, conversas cruzadas, conversas paralelas, as poses para as fotos, os flashes uns a seguir aos outros, a máquina de filmar
21h30 - A Ceia: Tenho o meu pai à esquerda e o meu sobrinho D.G. à direita.
21h35 - Bebida da noite espumante rosé. Eu, a irmã L. e as primas D., C. e Z. fazemos um brinde. D.G. olha para nós e ri, com o copo vazio na mão a dizer que também brindar. O bacalhau vem para mesa. Está toda a gente a comer menos o D.G.





Tento convencê-lo a comer bacalhau, mas ele nada:
Eu - Devias comer um bocadinho do bacalhau, está muito bom.
D.G. - Não tia, bacalhau não. Tia, tia é natal. Tchim-Tchim?
Eu - Se comeres um bocadinho de bacalhau a tia faz Tchim-Tchim.
D.G. - Primeiro Tchim-Tchim depois bacalhau
Eu - Ok. Vamos lá ao Tchim-Tchim
D.G. - Tchim-Tchim
Eu - Agora o bacalhau
D.G. - Eu tiro, só um bocadinho
Eu - Vá come mais um bocadinho, isso mesmo.
21h50
D.G. - Tia tchim-tchim!
21h55
D.G. - Tia tchim-tchim!
22h
D.G. - Tia tchim-tchim!
22h05, 22h10, 22h15, 22h20, 22h25, 22h30
D.G -Tia tchim-tchim!
22h35
D.G - Tia...
Eu - Tchim-tchim?
D.G. - Nã, agora não. Tou a comer o cão com asas*. Só quero mais salada
22H37 - Baixo o braço, poiso o copo na mesa e pego na garrafa, ambos estão vazios
22h40 - Noto que ainda não acabei o primeiro prato e estou com uma tosga bem grande à pala de um puto de três anos.





25/Dezembro:


10h - Acordar com a cabeça feita num oito, a boca a saber a papel e entrar em pânico por mais uma vez estar atrasadíssima para o trabalho



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* Vulgo Perú

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Ausente

Ando com falta de tempo, de inspiração e de vontade...

As histórias são muitas, as aventuras também, os pedidos para trazer uma nova luz a este espaço começam a surgir com alguma insistência. Mas como sou uma mulher de seguir as minhas próprias vontades e que adora ser do contra, vou continuar no meu ritmo.

De momento, a luz que aqui se vê e sente vai-se manter.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Engate

Já passam das oito horas da noite, a temperatura está um pouco baixa, o cansaço acumulado de mais um dia de trabalho (daqueles que desejamos ao nosso melhor inimigo) permite-me esperar com resignação, mais do que com paciência, pela hora de partida do autocarro. Vou-me distraindo com a música que me invade os ouvidos, com um cigarro que teimo ver queimar e um telefonema de alguém que não interessa nem ao menino Jesus.

Enquanto isso vejo chegar o motorista. Um tipo com mania que é pintas (quase ao estilo cabelo lambido), que se acha o máximo e que nenhuma mulher lhe resiste.

Ele muito lentamente encosta-se a um dos poste do abrigo da paragem, assim como quem não quer a coisa, olha-me de alto a baixo e vai abanando a cabeça em sinal de aprovação. Puxa de um cigarro, enfia as mãos nos bolsos à procura de um isqueiro que, supostamente não encontra e depois de alguns segundos de teatro vem ter comigo:

- Tem lume?

Eu sem nada dizer empresto-lhe o isqueiro que tenho na mão.
Ele acende o cigarro e agradece.
Eu retribuo com um seco aceno de cabeça e afasto-me.
Os meus pensamentos levam-me para longe, mas depressa sou interrompida pela tosse cavernosa do dito senhor.

Ao achar que tem a minha atenção diz:

- Tenho de largar o tabaco. Só me está a fazer mal... Mas também se não forem estes pequenos prazeres da vida, pouco mais levamos dela...

Eu mantenho-me em silêncio. Mas ele volta à carga:

- Sabe, eu só tenho dois vícios. Quer adivinhar quais são?

Já sem paciência nenhuma para o ouvir, respondo:

- Um é mais que óbvio, o outro não faço a mínima.

Acompanhando com uma nada subtíl piscadela de olho ele insiste:

- Atire qualquer coisa para o ar, não é nada complicado.

Acabei por dizer a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Álcool?!?!

Tentando não me desmanchar a rir com a cara de espanto dele, acrescentei:

- Peço desculpa, é óbvio que um motorista profissional não é viciado em álcool. É melhor dizer-me qual é.

Ele sorri, enche o peito de ar, volta a piscar o olho (nessa fase já comecei a pensar que fosse tique) e tal como um pavão responde:

- As mulheres. Então não é óbvio?!?!?

A minha resposta ao "Então não é óbvio?!?!?":

- Pois, não sei como não me lembrei desse. Logo eu que tenho estes mesmos dois vícios.

E ficámos por aqui...