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segunda-feira, 12 de março de 2012

Resposta a Dúvidas Existenciais

Há pouco, por mera curiosidade, estive a ver as estatísticas semanais das visitas aqui ao Blog.

Quando cheguei à parte das palavras-chave usadas nas pesquisas deparei-me com isso:

“que fazer numa viagem de autocarro”.


Assim, perante esta dúvida existencial de grande importância vou deixar algumas das coisas que eu faço e julgo poderem ser feitas por qualquer um que ande de autocarro.

Por norma, tendo em conta que no último ano tenho andado quase sempre na mesma carreira, fora das horas de ponta e, principalmente, à noite, depois de entrar e validar o passe (algo que quase mais ninguém faz a essa hora), começo por:
1- tentar escolher o lugar ideal para me sentar, sem incomodar ninguém nem ser incomodada. 
2- enquanto vou a fazer este pequeno percurso estou quase sempre a rezar para  não ser projectada até ao local escolhido (ao invés de ir pelos meus próprios passos). Sim, os motoristas da noite são aceleras de primeira.

Quando devidamente sentada, no caso de ter sido projectada até lá, faço por procurar por:
3- vermelhões,
4- nódoas negras,
5- arranhões e
6- ferimentos graves.

Não encontrando nada disso, dedico-me a fazer o mesmo que faço quando chego ao meu lugar pelos meus próprios passos:

7-  ligo o som do meu MP3 (quando a cabeça não pede silêncio),
8- pego no livro que quase sempre viaja na minha mala (se a preguiça não me levar à inércia e falta de concentração para leituras),
9- de quando em vez passo uma vista de olhos pelo telemóvel a ver se alguém quis saber de mim, quer via SMS, chamada, Emails ou Livro das Fuças (isso se os solavancos do autocarro me deixarem desenhar o padrão de desbloqueio do telemóvel sem errar e bloqueá-lo por excesso de tentativas mal sucedidas) ou
10- simplesmente, fico a olhar para o vidro a ver o caminho de regresso a casa, que me vai dando a perceber que se transforma em mais um dia que passou (à velocidade que o autocarro anda, quase sempre só me apercebo das sombras e dos clarões amarelos que iluminam a cidade noite fora).

Para 15 a 20 minutos de viagem, a meu ver, é actividade mais do que suficiente para ocupar o tempo.


Mas de quando em vez (quase sempre aos fins de semana, feriados e noites de futebol) as opções possíveis são péssimas, como:
11-  ter que ouvir conversas entre terceiros e músicas alheias já que anda por aí uma geração que não sabe o que são uns headphones (quase sempre a conversa é da treta, dado o adiantado da hora e dos temas abordados e a música é péssima quer pela qualidade do som, quer pelo estilo),
12- levar com putos aos berros já meio grogues com o vinho que vão bebendo do pacote ou transformado em sangria em garrafas de litro e meio de água, para além, da garrafa de litro da cerveja partilhada por 10 ou 20 (nestes momentos sinto-me numa taberna à moda antiga, com bancadas pegajosas do vinho, do bagaço e da cerveja que entranharam ao longo dos anos),
13- ver miúdas praticamente despidas e maquilhadas como se fossem para o ataque, mesmo com temperaturas abaixo dos 10 graus (depois acabo por descobrir que vão só ter com uns amigos que conheceram na noite e que todo este excesso se deve ao facto de terem estado horas a vestir-se para aparecerem despidas).

Nestes dias a viagem parece demorar o dobro do tempo, com tanto entra e  sai.


Mas como nem tudo pode ser negro neste de quando em vez, também há as boas opções:

14- conseguir fazer a viagem do princípio ao fim, como único passageiro (as noites de 2º feira de frio e de chuva são propícias a isso),
15- encontrar o motorista jeitoso com o qual até dá para ter uma conversa descontraída e despretensiosa, que sabe as horas a que saio, ao ponto de conseguir atrasar-se, por ter o ‘azar’ de apanhar os sinais todos vermelhos, e chegar à minha paragem já comigo lá (mesmo não sabendo o nome um do outro conseguimos manter-nos num tu cá tu lá, que estando inspirados até pode cair num inocente jogo de flirt ou ficar por adivinhar a figura que vai entrar a seguir conforme o dia da semana e a hora).

Aqui a viagem parece que acaba logo que começa, já que parece feita numa velocidade supersónica, em que não damos pelo tempo passar.


Esta semana de trabalho, tirando hoje que foi dia de seca por não ter conseguido sair a horas, teve quase de tudo um pouco. Apenas faltou ser o único passageiro, a música alheia e os putos da vinhaça (sendo que os dois últimos por razões óbvias não me fizeram nenhuma falta).

Espero que alguma das opções por aqui deixadas sirva para o próximo que vier cá parar com a mesma grande dúvida existencial.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Frases Nicola...

Se a noite de hoje fosse uma frase Nicola seria:


"Uma noite, enquanto espero pelo autocarro no regresso a casa 
depois de um dia interminável de trabalho,
vou ver um carro parar e perguntar quanto é que levo...
Hoje (claro está) foi a noite!*"



*Trabalhar numa zona nobre de Lisboa onde se vê todo o tipo de prostituição
faz-nos, sem querer, participar em filmes desconfortavelmente estranhos.
Muitas vezes pergunto como tenho paciência para estas vidas paralelas.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Lisboa, Um Quotidiano

Os galos cantam anunciando o nascer de um novo dia. Do meio do Cruzeiro, no início da freguesia da Ajuda, ouve-se o ecoar dos sinos que, do alto da Igreja da Boa-Hora, tocam em compasso cadente as seis horas. Mais um dia começa cheio de sol parecendo Primavera, mas a temperatura baixa e a ausência das aves migratórias recorda às mentes mais distraídas que o Inverno ainda está para ficar.

Da janela da cozinha oiço, enquanto olho a paisagem que se estende à minha volta, ao longe, muito ao longe, os barcos no Tejo a assinalarem a sua presença e, um pouco mais ao alto, um leve som do comboio a passar pela ponte.

Na rua andam descontraídas as senhoras que, ainda de pijama e robe vestidos, de chinelos calçado e cabelo desgrenhado, vão à padaria comprar pão fresco para o pequeno almoço.

Por volta das oito, ganho coragem para enfrentar um novo dia e saio de casa para a universidade. Na rua vêem-se já algumas pessoas apressadas para o trabalho e outras ainda a levarem os mais novos à escola. Muitos deles, coitados, ainda meio ensonados quase que vão arrastados pelo caminho.

Por entre passeios de terra, herança de uma outra época de antigas quintas, das quais apenas resta o velho portão e algumas pequenas hortas ainda hoje tratadas por alguns vizinhos, e outros já ladrilhados, caminho para a paragem do autocarro. Pelo caminho passam por mim algumas pessoas num caminhar apressado e pesado e um grupo de crianças que vai para a escola num grande reboliço, atropelando-se mutuamente ao tentarem todas elas contar em simultâneo as suas aventuras. Toda esta energia contrasta com o meu caminhar sereno, despreocupado e preguiçoso, que é apenas uma forma que encontrei para não me deixar envadir logo pela manhã pelo stress da vida da cidade.

Quando chego à paragem já uma fila de pessoas se forma, são sempre as mesmas caras, mas nunca ninguém se fala, e da esquina um pouco mais à frente vem um forte aroma a café e pão quente que aquece por breves instantes a manhã fria. O autocarro passa, mas mesmo tendo pressa prefiro esperar pelo eléctrico, que tem um ritmo inverso ao da cidade a esta hora e que permite uma viagem menos atribulada e acidentada.

Do lado esquerdo para quem vem de Alcântara, encontram-se as intermináveis filas de carros que caracterizam o pára/arranca do trânsito em Lisboa e a zona do comércio de dia. Do lado oposto, a linha de comboio separa a cidade do rio, da actividade ribeirinha e da zona dos grandes armazéns, muitos deles transformados em locais de diversão nocturna, dando muita cor à noite de Lisboa e transformando-a numa outra cidade.

Vejo passar a zona residencial e as antigas zonas industrial e comercial de Alcântara e por entre inúmeras obras que se estendem pelo caminho, erguendo novos e modernos edifícios e construíndo novas e amplas avenidas, vislumbro os deslumbrantes edifícios antigos, como o imponente Museu das Janelas Verdes, e alguns prédios de dois a três andares que, apesar de desgastados pelo tempo, ainda conseguem encantar pela sua arquitectura e cores alegres.

Ao chegar ao fim da viagem, apesar de não passar pelo mercado mais conhecido de Lisboa, 'A Ribeira', sinto no ar a azáfama dos vendedores que durante anos a fio fazem do mercado a sua segunda casa e dele tentam tirar o seu sustento, sem nunca parecerem desanimar.

No final da tarde, com a cidade mais calma e no regresso a casa, entrevêem-se nas ruas os rostos cansados, que um sorriso amarelo mal consegue disfarçar, e o trocar de face da cidade que, como uma mulher, parece ganhar vida e força para se vestir de luz e cor, entrando na noite para arrasar.

Todo este mundo fica para trás quando chego a casa e oiço, nos seus latidos e mios noctívagos, os cães e os gatos do bairro e, à porta de casa, já sinto o cheiro do jantar pronto a ir para a mesa. Nesta altura, chega, pelo menos para mim, o fim de um dia de Lisboa.


Escrito num dia esquecido no final de 1999 ou inícios de 2000.
Seja como for, foi no século passado. 


sábado, 1 de janeiro de 2011

De 2010

Para o FB, o meu ano de 2010 foi mais ou menos assim:

Mas eu sei que foi isso e muito mais.

A título pessoal, 2010 foi um ano que começou por prometer muito, só que no seu decorrer acabou por deixar a maior parte deste muito em suspenso.

Por ter começado por prometer muito levou-me a criar expectativas e objectivos mais altos que o costume. Por os mais importantes destes objectivos e expectativas começarem a esbarrar, praticamente um a um, no suspenso trouxe-me algum amargo de boca e frustração.

Se não medisse os prós e contras do que se passou e deixasse contagiar pelo meu lado pessimista, diria que 2010 foi o ano da afirmação dos planos de vida constantemente adiados.

Sendo que a frase do ano seria: 'Porra! Nesta fase da vida não era aqui que queria estar, era muito mais à frente.'

Felizmente que sei que o lado pessimista, por ser birrento,  nunca se lembra nem dá valor ao muito do que já tem e conseguiu.

Apesar de, efectivamente, nesta fase da vida pretender estar um pouco mais à frente e ter a noção que muito do que acabou por não acontecer em 2010 é que não me deixou chegar onde queria, não posso dizer que foi um ano só de coisas más. Muito pelo contrário.

2010 teve novidades e mais do mesmo; teve começos e finais importantes; teve novas amizades, bem como o reforço e desmoronamento de velhas; teve muitos risos, mimos e gargalhadas; teve pouco tempo para tudo e muito tempo para nada.

Portanto, 2010 trouxe muito bons ensinamentos que me fazem crer, ainda mais, que vale a pena continuar a sorrir e lambuzar-me com o bom que a vida me dá.

É esta visão optimista, que considero muito mais equilibrada e que, por isso, levo-a mais a sério.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Há Dias e Dias...

O dia que passou foi bem preenchido.

Começou com hora e meia de trabalho, seguida de três horas de almoço de Natal rodeada de engenheiros, desenhadores e conversas quase sempre sobre estruturas, Vinho do Porto e Queijos dos Açores.

Terminados os compromissos laborais, vieram quatro horas e meia de caminhada, lanche e conversa de amigas sobre a aventura de largar tudo o que se tem como garantido e aceitar o desafio de alimentar África a partir dos bucólicos campos holandeses.

Como o tempo passado entre amigos é sempre pouco, houve seis horas  compostas de viagem gastronómica pelo Japão, viagem musical XPTO pelo Templários, regadas a copos e, uma vez mais, conversas menos sérias, vazias de importância mundial, mas de extrema relevância pessoal, pela leveza e sorrisos que trazem.

Para terminar em beleza, ao chegar a casa fui recebida pelos doces odores do açúcar e da canela do Natal, os quais, agora sim, fazem-me sentir que já estou pronta para receber a pequena, grande festa da família.

Ah! Só falta preparar a mesa, fazer o teste de som e, claro está, enfeitar a Árvore de Natal que ainda está, assim...



... sem qualquer roupagem.

Família te espero.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Depois da Tempestada...


Um final de tarde tranquilo e solarengo.
Mesmo como eu gosto!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Definitivamente Tenho que Arranjar Vida Própria

Nas últimas 21 horas, passei:

- 15h a trabalhar,
- 3h a dormir e
- Mais 3h no var e vir do trabalho.

Há qualquer coisa que não bate certo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pedra no Sapato

Hoje acordei em sobressalto.

- BOLAS! Não acredito que não ouvi o despertador tocar. - vou pensando enquanto me levanto desorientada e tento entrar no piloto automático que rege as minhas acções a esta hora da madrugada.

Vou despachando as coisas, banho, mini pequeno almoço, lavar os dentes, vestir, calçar, calçar, calçar, calçar, calçar...

Sim nesta fase houve alguma hesitação porque ao inclinar a cabeça para ajeitar o sapato dei de caras com o relógio. Marcava 5h29.

- Pois está claro que não ouviste o despertador tocar. Já que só é suposto tocar às 5h30.

Escusado será dizer que nos 45 minutos seguintes, enquanto aguardava a hora de sair de casa,estive a martirizar-me por ter acordado ainda antes que as galinhas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Meu Querido Mês de Agosto


Entre dias de muito trabalho, intercalados com outros de muita praia e de sombra por algumas esplanadas estou:

A redescobrir, a repensar e a descartar 'velhas' amizades.

A cimentar, a encontrar e a procurar novas amizades.

A silly season serve para estas coisas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Quem Ficou Perturbada Fui Eu

E hoje, com a Volta a Portugal, a Carris ficou assim:



Pior, pior, foi ter perturbado quem trabalha e tem horários a cumprir.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

À Falta de Melhor... Penso


Estive a dar uma vista de olhos aqui pela minha casota e reparei que tenho links para actualizar e que tenho de arranjar tempo (ou melhor, deixar a preguiça de lado) para voltar a pôr este blog a funcionar.

Isso, ou recomeçar a parar nas paragens de autocarro a horas decentes, para pelo menos ter algo a dizer, só porque ouvi por aí*... Acho que vou pedir lá no trabalho para me voltarem a dar um horário de gente 'normal'**...

Ando com saudades do pôr-do-sol no regresso a casa após uma jornada de trabalho.

..........

* isso tudo porque ontem tive uma experiência quase traumática numa viagem de autocarro... Não, não envolveu pancadaria, muito menos envolveu música aos altos berros a sair de um telemóvel "xê comé", nem velhotes à pancada pelo best seat, nem namorados aos melos. Se bem que esta última já está no tema...
** Estou a dizer isso agora porque estou num dia de folga no início da semana (daquelas semanas que começam bem, porque no fim de semana não se trabalhou e também ainda faltam mais 2 dias para voltar ao trabalho).

terça-feira, 15 de abril de 2008

Contado... Ninguém Acredita

Parece impossível, mas é verdadeiro.

Quando me lembro de contar algumas das minhas aventuras, grande parte do pessoal fica meio aparvalhado. Há quem diga que não percebe como é que a mim me acontece tanto absurdo e até certo ponto eu já aceitar como normal.
Bem, não é bem eu considerar normal as coisas que me acontecem, é mais eu já não me espantar com tanta anormalidade que vai acontecendo no meu dia a dia.
Para introdução a mais um episódio, no mínimo desagradável, acho que já é suficiente.
Vamos lá à história que é o que interessa.

Há dias, após mais um dos meus pequenos passeios matinais, estou, feliz e contente, a regressar a casa, quando vejo um homem (acho que chamá-lo de homem é bom de mais, mas dado o adiantado da hora e a minha falta de paciência para mais, fica o elogio não merecido) a caminhar na minha direcção, com um ar idiota até à última casa, que começa a cantarolar em voz alta:

- Eu gostú muitxo dxi vê sua bundxinha lindxa (vai com sotaque para não fugirem do original)

Bem sei que não é nada de mais. O idiota pode ter ficado com esta música no ouvido, deu-lhe uma coisinha má e lembrou-se de cantarolar (pensei eu na minha humilde inocência).
Quando está mesmo ao pé de mim, já não bastava o desafina cantarolar, não vai de modos.

PAAAAAAAAAAZZZZ!!!

Então não é que este mentecapto se lembra de levar a mão imunda até ao meu belo traseiro. Assim sem mais nem menos apalpa-me.


Eh pá, tudo menos isso! Suporto tudo menos isso! - disse para mim nos escassos milésimos de segundo que antecederam a minha transformação para o Self-defense mode.
Digo-vos já que tenho medo quando chego a este ponto. É que fico cega e não meço as consequências dos meus actos.

Mas pronto, desta vez fui soft. Só enfiei uma murraça no focinho da besta quadrada.
Nada de mais.


E ele também deve ter achado o meu murro coisa de menina, pois, embora agarrado ao queixo, ainda se foi embora a bramir:

- Lindxa eu gostú dxi você, más gostava mais si você não fumassi.

Bem, para me conter e não ir a correr atrás do gajo, contei até 100 em japonês, ainda mais rápido do que quando entrei em Self-defense mode, e só o gritei:

- VÁ PÓ CA-RA-LHOOOOOOOOOOO!

Há coisas fantásticas, não há?
Mas esta não é certamente.

Não percebo porque é que me continuam a surgir tantos duques e cenas tristes. Este jogo parece estar viciado.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Medo, Muito Medo?





O que sentir quando um colega, com o qual não trocamos mais do que o cordial 'bom dia, como está?' e impressões de trabalho, nos vem procurar todos os dias, à entrada e saída, para um beija-mão, nos oferece flores e bombons no dia de S. Valentim e ainda nos trata por você, num falso distanciamento, já que trantando-nos pelo nome acrescenta um inha?

Medo, muito medo é pouco?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Is It a Bird? Is It a Plain? No, Is Superman!!

Saio do trabalho, estou na paragem a aguardar o autocarro. Vou aproveitando os entretantos para pôr a leitura em dia e descomprimir do stress do trabalho. À minha volta meia dúzia de pessoas aguardam impacientes mais um regresso a casa, mas a sua impaciência não me atinge. Em poucos minutos estou envolvida pelo ritmo que o leitor de mp3 liberta. Deixo de pensar no trabalho e desligo-me do que se passa à minha volta.

A chegada de um autocarro faz-me voltar à terra. Desvio os olhos do livro para ver se é o meu. Para variar não é, mas pelo menos à minha volta já só restam duas senhoras. As outras pessoas desapareceram.

A música e a leitura estão novamente a libertar-me do que me rodeia. A sensação de liberdade é quebrada pelo diálogo que as duas senhoras começam.

Uma, excitadíssima até à última casa, aponta para algo enquanto vai chamando a atenção da companheira que não parece dar a mínima importância ao que se passa.

Senhora excitadíssima (em grande animação): Olha, olha!!! É um cão.
Senhora apática (numa interrogação): Um cãooo?
Senhora excitadíssima: Ali. Olha, é um cão.
Senhora apática: Isso? Isso não é um cão. É...
Senhora excitadíssima (atropelando a outra): Pois não, tens razão. É um lobo.
Senhora apática (em maior interrogação): Um lobooo?!?!?
Senhora excitadíssima (baralhada): Não é um lobo? Então o que é?
Senhora apática (incrédula): Não. É um leão.
Senhora excitadíssima (decepcionada): Ah!! Pois é é um leão.

Quando volta a reinar o silêncio entre as duas, fecho o livro, tiro o telemóvel da mala, vejo as horas, olho para o tal que começou por ser cão, depois passou a lobo e finalmente a leão e não consigo deixar de rir.

Por uns instantes vi-me numa adaptação foleira das Aventuras do Super Homem, graças ao painel publicitário do abrigo da paragem do autocarro.





Is it a Dog? Is it a Wolf?
No, Is Lion of Porches!!



quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Transportes Públicos

O Que Quero Ser Quando For Grande?



Hoje no regresso a casa, depois de mais um dia de trabalho, um grupo de quatro miúdas, à volta dos 20 anos, todas estudantes do curso de enfermagem, debatiam entre elas o que queriam fazer no futuro no que à sua carreira profissional diz respeito.

Depois de muitas idiotices ditas por todas, desde ganhar o euromilhões, ser reformada como o pai ou desposar um homem de posses, uma sai-se com esta:

- Bom mesmo, era agarrar um jogador de futebol. Isso é que era.

Ao que outra responde:

- Mas vê se te certificas que joga pelo menos na primeira divisão. Não faças como umas e outras que andam a sustentar um. - E olha de esguelha para outra amiga.

Ao que parece era uma indirecta (muito directa). Já que, apesar do calor humano que transbordava do autocarro, o ambiente entre elas gelou.

Depois desta pérola instalou-se um silêncio constrangedor no seio do grupo.

E na minha cabeça surgem algumas dúvidas existenciais, mas estas senhoras estão a estudar para quê? Só para poderem dizer que têm um canudo? Porque enfermagem está visto que não entra no projecto de carreira de nenhuma delas. Agora arranjar quem sustente os seus vícios...

Acho que um curso de Rameira ficava-lhes bem!


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Pobreza (de Espírito) A Quanto Obrigas



Amigas que discutiam uma grande questão social.
- Há dias vi um anúncio no jornal de venda de uma casa que dizia não tem banheira.

- Não tem banheira?!? Mas desde quando há casas sem banheira? Ainda por cima para venda?

- Não tem banheira mas pode ter um polibã ou duche.

- Não, não tinha banheira instalada.

- Pior, pior seria não ter sanita.

- ...
- ...
- ...

- Sim. Outro dia ouvi um senhor a contar que vive numa casa muito degradada e que como sanita usa uma cadeira com um buraco no meio e um alguidar por baixo e depois deitava as 'notícias vindas do interior' para a rua.

- Como assim, ele usa a cadeira na rua?

- Ya, vai para a rua e põe-se a cagar em frente aos vizinhos. Dahhhhhh. Achas? Claro que não. O que vai para a rua são o mijo e os cagalhões.

- Ah ok, já percebi.

- Ainda há muita pobreza neste mundo.

- Pois há e muita gente não vê isso.

- Ya. Eu por exemplo não quero ver.

- Ya. Eu nem me imagino a viver sem, televisão, microondas e 'tosteira'...

- 'Tosteira'?!?!?

- Sim a máquina para fazer torradas.

- Miúda, quanto muito é uma torradeira.

- Ou isso...

O que não falta por aí também é pobreza de espírito.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Não É Assim Que Se Diz!

Ontem quando estava a regressar a casa, depois de mais um dia de trabalho, entro no autocarro e passado algumas paragens entram, em amena cavaqueira, mãe e filha.

A criança, com cerca de 7 anos, está na fase de soletrar palavras. Tudo o que lhe aparece no campo de visão e lhe disperta curiosidade é soletrado (raramente se engana, só quando ainda confunde letras).
Imagino a paciência de santo que a mãe dela tem para a aguentar, dia após dia, em viagens de uma hora. A criança não se cala nem para respirar. Parece que está ligada à corrente e não há forma de encontrar um botão de 'off' (já nem falo de um botão dos níveis de décibeis, porque sei que é pedir demasiado).

A meio da viagem a miúda começa a gritar:

- Oh mãe! Oh mãe! Olha o polícia. Olha, olha...
- Sim filha já vi.
- Olha, olha mãe ele tem qualquer coisa escrita nas costas.
- Sim filha, é polícia, todes têm.
- Com'é que sabes se ainda não olhaste pra eles?
- Humm?!?!?
- Sim, tás c'os olhos no telemóvel.
- Pois, mas é isso, eu sei...
- Mas com'é que sabes?
- Consegues ver o que tá escrito nas costas dele?
- Sim.
- Atão soletra prá 'cabarem as teimas.
- Tá bem. P-L-I-C-I-A, Plícia.
- Oh filha p'lo amor de Deus é P-U-L, 'PUlícia' agora plícia. BURRA!!!

A miúda calou-se, cruzou os braços e amuou.

Nesta altura, incrédula com o que tinha acabo de ouvir, levantei a cabeça para perceber o que se passava.

À mãe atribuí nota máxima pelo atentado à língua portuguesa e pela frieza e certeza com que corrigiu a filha, sem nunca tirar os olhos do telemóvel.

E à miúda atribuí uma medalha de mérito, porque de facto não se enganou a soletrar já que a palavra que se via nas costas do polícia era mesmo 'plícia'. Devido à postura o 'o' ficou escondido.



Saí do autocarro, ainda desnorteada com o que se passou. E enquanto caminhava até casa recordei-me de uma situação passada (era eu uma pré-adolescente) em que a empregada lá de casa corrige o modo de falar da filha e acaba por se enterrar.

Chega a hora do lanche e eu, a minha irmã e os meus primos perguntamos à miúda:

- Flávia o que perferes? Sumo, leite, chá ou iogurte?

Ela pensa, pensa, pensa e meio envergonhada e perdida com tantas hipóteses de escolha acaba por dizer com um sorriso nos lábios:

- Quero grute!

Nós entendemos o que ela queria, acho que qualquer um entendia. Mas no instante a seguir ouvimos a mãe a gritar da outra ponta da casa:

-OH Flávia já te disse que não se diz grute é agurte.

Como putos que éramos não conseguimos conter o riso. E até hoje, passados uns 20 anos, sempre que apanhamos alguém a corrigir outro alguém, ou, pior ainda, quando encontramos a miúda gritamos:

-OH Flávia já te disse que não se diz grute é agurte.